Ensaio escrito para o concurso de ensaios do Ayn Rand Center Latin America sobre A Revolta de Atlas, enviado em 25 de março de 2023.
“1) What”
1No final de 2022, a terceira maior exchange de criptoativos do mundo repentinamente não conseguiu mais honrar seus débitos e deixou milhões de clientes sem acesso a seu dinheiro. Filho de dois advogados que atuam na área de compliance, Sam Bankman-Fried é o dono e provável mentor desse grande esquema criminoso, além de adepto do movimento de altruísmo efetivo, um movimento que tenta maximizar o impacto de seu altruísmo.
É com um evento do mundo real que eu entendo ser a forma mais apropriada de começar este ensaio sobre o magnum opus da Ayn Rand, um romance sobre a filosofia feita para se viver na Terra. No ponto de vista da autora, uma obra de arte apresenta uma filosofia, ou seja, uma forma de enxergar o mundo real. Apesar de a história apresentada em A Revolta de Atlas ser fictícia, ela não é irreal. Pelo contrário, é uma estilização da realidade capaz de nos fazer enxergá-la com mais nitidez do que uma notícia de jornal. Ao entendermos cada vez mais esta obra, melhor conseguimos enxergar o que está acontecendo hoje no mundo.
Sam Bankman-Fried é o vilão randiano clássico. Cínico, lobista, com amigos poderosos, queridinho da mídia, sem compromisso com a própria integridade e com uma grande vontade altruísta de causar impacto na vida dos que ele considera menos afortunados. Hoje, sabemos que pelo menos 40 milhões de dólares de “altruísmo efetivo” foi para financiamento de campanhas políticas, saindo diretamente do bolso de seus clientes. Quase nada disso foi feito totalmente no escuro, mas foi acobertado e ignorado, já que estava tudo sendo feito “por um bem maior”. Mesmo após o desmoronamento de suas empresas bilionárias de criptoativos e duas grandes investigações acontecendo, Sam foi entrevistado convidado no evento do New York Times onde pedia desculpas como se tivesse quebrado uma caixa de ovos e não roubado ativamente seus clientes com uma elaborada engenharia financeira.
Para entendermos melhor como chegamos nesse patamar, vamos entrar um pouco na trama de A Revolta de Atlas.
O Medo
A trama realmente começa quando um maquinista anônimo, esperando alguém tomar iniciativa com o trem parado, é confrontado por Dagny Taggart, a dona da empresa de trens.
“– Não nos arriscamos – disse o maquinista. – O culpado por tudo isto vai botar a culpa em nós se tomarmos alguma iniciativa. Por isso, só vamos sair daqui quando alguém nos der ordem para sair.”
Esse trecho nos apresenta informalmente o contexto inteiro do livro e todo o resto é meramente uma consequência lógica desta introdução. Vamos quebrá-lo em partes.
Primeiramente, temos um maquinista sem nome num trem parado. Sua responsabilidade, como bem apontado por Dagny, é “botar esse trem para andar”. O fato de ele não ter um nome apresentado no livro mostra que nem ele nem a situação são especialmente dignas de serem retratadas como especiais. Esse maquinista e essa situação não são memoráveis com a exceção de que “O Cometa nunca atrasa”. Ou seja, essa cena nos pinta um mundo onde todos os trens atrasam e o Cometa Taggart é o último bastião de serviço minimamente bem feito no ramo. Mais além, essa situação, que é inusitada apenas para a Dagny Taggart e levada como rotineira por todos os funcionários e passageiros, nos leva a crer que todos os outros serviços do país, e não só da cidade ou estado, já que linhas de trens percorrem o país inteiro, sofrem de males similares.
O que leva um maquinista a não cumprir seu trabalho e aguardar a salvação cair do céu? O medo. Ao ser perguntado sobre o que está havendo, o maquinista, que deveria pelo menos estar a par da situação, meramente responde “não sei” com desinteresse e o chefe do trem aparece para dar uma possível explicação. O maquinista não sabe, não tem interesse em saber, e não tem nem o mínimo de curiosidade para nem ao menos involuntariamente imaginar o que possa ter sido. O que aconteceria se ele tomasse alguma atitude e errasse? Teria que assumir sua responsabilidade em seus atos. A forma simplista de ver as coisas é que só tem responsabilidade quem age por conta própria, ou seja, quem pensa. Quem apenas segue ordens não precisa pensar, basta fazer o que é dito e quem erra é o que ordenou, não quem executou.
Uma máquina não pode ser responsabilizada por um erro, apenas quem a utilizou ou quem a fez mal-funcionar. Sendo assim, podemos depreender que o maquinista em sua vontade mais íntima era a de não pensar, ser um mero instrumento de uso. Na visão de quem tem medo, isso faz sentido: ele não teria mais responsabilidades, não teria de tomar decisões difíceis, não seria mais culpado por um problema; só teria um problema: ele deixaria de lado a característica mais importante que nos faz humanos, a nossa capacidade de pensar. O maquinista, nessa cena, está disposto a abdicar de sua humanidade para viver na barbaridade selvagem de um animal de rebanho, apenas seguindo os latidos do cão-pastor. Em última instância, ele está meramente “cumprindo ordens”, tal qual nazistas no tribunal de Nuremberg.
O grande problema do mundo de A Revolta de Atlas é exatamente o mesmo problema da Alemanha nazista. Como 90 milhões de pessoas conseguem se deixar ser controladas por apenas algumas? Alguns podem dizer “armas”, mas todos sabemos que não havia munição nem tecnologia suficiente para esse tipo de ameaça. A única forma é a forma que sempre foi feita: a de quebrar o espírito do homem ao impedi-lo de usar sua mente.
Em algum momento, esse maquinista foi convencido de que não era capaz, de que não valia a pena se esforçar, de que o que fazia sentido em sua cabeça era errado e que o certo era o incompreensível. Somente assim uma pessoa aceita que a razão é uma ferramenta ultrapassada e que existem “verdades transcendentais” que nenhum humano pode obter por conta própria e só resta à pessoa confiar no ser supostamente iluminado que tem essa resposta. E é nesse momento que o homem abdica conscientemente da sua mente e, por consequência, de sua liberdade, em favor de um guru, mestre, pai espiritual, messias ou salvador do povo.
A Culpa
A princípio, é fácil quebrar os espíritos de alguns homens; da maioria, talvez. Mas o que fazer com os que naturalmente nascem com espíritos inquebráveis? Eles podem não ser aniquilados, mas podem ser curvados usando a ferramenta certa. Esgotado o maquinista, vamos analisar agora Hank Rearden e sua saga da redenção de sua culpa.
Rearden é dono de uma indústria de siderurgia que inventou um novo tipo de liga metálica. Esse metal, tal qual o aço foi um dia, é uma inovação incrível, mais leve, mais resistente, mais barato e capaz de aumentar a produtividade em diversos empreendimentos. É a conquista de uma mente com implicações fantásticas para a humanidade. Para conseguir erguer o império Rearden, não bastou Hank ser um gênio, mas também ter um espírito vigoroso.
Inconscientemente, Hank sabia que sua indústria, sua criação egoísta, era sua fonte de felicidade e orgulho e, por isso, resistia tanto a misturá-la com sua vida pessoal. Seu espírito foi curvado ensinando-o à ideia platônica de que o mundo material, sua produção da fábrica, tudo que é real, palpável, segue regras diferentes do mundo “transcendental”, “superior”, e é intrinsecamente inferior. Ao apresentar a Dagny a empresa, disse:
“– Não temos qualidades espirituais nem visamos a coisas espirituais. Só queremos coisas materiais. É tudo o que nos interessa.”
Constatando que, conforme aprendeu, o cuidado que tinha com questões materiais, a pureza que prezava na forma que tocava a fábrica não era virtude, mas sim mesquinhez, egoísmo e falta de empatia. Apesar do sustento que provia à sua família, o apoio que dava a eles, tudo era feito numa relação tóxica não movida por carinho, afeto e respeito, mas como obrigação altruísta e sacrificial por meio da culpa. Todo diálogo que a família de Rearden tem com ele é numa tentativa de ter ainda mais controle sobre ele. Ele chegou a afirmar a Danneskjöld que “não existem mais padrões que orientem a vida” e, por isso, não era possível condenar seus roubos. Quando ele acredita que é tão moralmente corrupto quanto um ladrão, ele perde a capacidade racional de fazer julgamentos e, logo, de distinguir o bem do mal. Dr. Ferris ilustra bem o mecanismo da culpa no controle de um homem:
“– Quero dizer – disse o Dr. Ferris – que só se pode desarmar um homem por meio da culpa. Por intermédio daquilo que ele mesmo aceita como culpa. Se um homem já roubou um centavo, você pode lhe impor a punição que se dá a um assaltante de banco que ele a aceitará. Ele será capaz de suportar qualquer infelicidade, achando que é merecida. Se não há bastante culpa no mundo, precisamos criá-la. Se ensinamos a um homem que é errado olhar para as flores e ele acredita em nós e depois olha para as flores, podemos fazer o que quisermos com ele. Ele não vai se defender. Vai achar que é bem feito. Não vai lutar. Mas o perigo é o homem que obedece a seus próprios padrões morais. Cuidado com o homem de consciência limpa. É esse que vai nos derrotar.”
No momento que Rearden entendeu que não há contradições, que a pureza que ele tanto prezava no mundo físico era uma virtude, a virtude da produtividade, foi o momento que deixaram de ter qualquer controle sobre ele, pois entendeu que era virtuoso por inteiro, teve a consciência limpa.
A Dor
A dor física só é experienciada pelo maior herói da trama: John Galt. Justo a pessoa que foi inicialmente descrita por Eddie Willers como um rosto que aparentava nunca ter conhecido a dor, o medo e a culpa. E é justamente esse o motivo. O verdadeiro herói, a pessoa com maior habilidade e inteligência em todo enredo, é justamente a pessoa com tamanha capacidade de controle mental que se torna o único capaz de suportar a dor da tortura.
Enquanto o maquinista, representando uma grande parcela de homens comuns, mas não todos, Eddie Willers representa o homem comum virtuoso, que fácil e voluntariamente abdica da sua mente, pessoas virtuosas como Hank Rearden precisam ser enganadas para terem seus espíritos curvados em submissão, confundidas entre o que é o bem e o mal. Já John Galt representa o herói, a identidade do ideal máximo em que mesmo a dor insuportável da tortura não consegue dobrá-lo.
E é por meio deste personagem que temos um discurso com a visão completa da filosofia de Rand, pois ele é tanto engenheiro quanto filósofo, tem domínio tanto da física quanto da metafísica, dando a ideia da indissociabilidade entre corpo e espírito, embarcado nas ideias que dão nomes aos tomos “Não contradição”, “Isso ou aquilo” e “A=A”.
A Tocha de Wyatt
Enquanto temos de forma bem explícita o medo, a culpa e a dor como formas de controle, Wyatt se despede do mundo das repúblicas populares incendiando sua petrolífera, criando uma chama inextinguível. O objetivo concreto foi impedir que usurpadores usem do seu trabalho, mas ela fica conosco durante o livro inteiro como um símbolo.
Essa chama metaforicamente representa a chama que Prometeu trouxe aos homens, o símbolo da mente indomável e da criatividade humana. A tocha também é o símbolo representado na Estátua da Liberdade, um dos símbolos mais famosos dos EUA, que mostra o escape de Wyatt daquele sistema de submissão para um mundo de liberdade. Por fim, esse símbolo é a antítese das três ferramentas de escravidão, o medo, a culpa e a dor, ou seja, representa a coragem, a responsabilidade e a razão.
O motivo de a Chama de Wyatt ter sido a última coisa que os passageiros viram antes de entrarem no túnel no acidente, uma das cenas mais impactantes do livro, onde é descrito claramente o desprezo de cada um deles pelas virtudes humanas, é para representar que essa é a chama da vida e que não é possível viver sem esses atributos. Virtude é ação tomada para adquirir valor e a vida é a recompensa do valor. Desalinhamento com as virtudes humanas é um desalinhamento com a própria vida, que pode levar muito concretamente a um acidente como este.
Da Ficção à Realidade
A Revolta de Atlas nos ensina que o que nos torna humanos é nossa mente; é poder usar a razão, enquanto animais usam a força bruta. Entretanto, alguns indivíduos, quando não conseguem ter valor a oferecer a outra pessoa em troca de cooperação, não aceitam a realidade e tentam conseguir o que querem por meio da submissão de outros homens por métodos animalescos, tentando infligir medo, culpa e dor.
Se a virtude é uma ação para conseguir valor, ela é inerentemente egoísta, no sentido de que o sujeito da ação se beneficia com a própria ação, sem desrespeitar o direito de ninguém, sendo o altruísmo o inverso, já que o sujeito da ação perde valor. Entretanto, como vimos no livro, James Taggart e seus amigos, por não conseguirem gerar valor, geralmente querem fazer altruísmo com dinheiro dos outros por meio da política.
De modo similar, Sam Bankman-Fried “imprimiu” diversos tokens sem lastro e usou-os de garantia para um empréstimo não consensual, resultando na extração de valor de seus clientes para doações políticas, entre outras. Segundo Sam, anos antes de falir, como os problemas do mundo são muitos e seu objetivo é doar dinheiro, ele deveria arriscar muito mais que o normal sem medo de falir.
Isso mostra, para quem estava prestando atenção, o nível de desalinhamento de Sam com seus sócios e clientes, já que o raciocínio dele o faz desrespeitar a propriedade nele investida, pelos seus sócios, e confiada, pelos seus clientes, a fim de um suposto bem altruísta. Oras, uma exchange é como um banco de séculos atrás: se os clientes tentarem sacar e não houver saldo para honrar os saques, a exchange tem que declarar falência. Até porque o governo não consegue imprimir bitcoins para salvar a exchange. Se este desalinhamento de valores já o faz não respeitar a propriedade do cliente, para roubá-lo é só dar mais um passo. Vida é prosperidade; estar desalinhado com a filosofia da vida é estar alinhado com a ruína. E, possivelmente, se perguntar a um jornalista o porquê de ele pegar leve com o Sam, ele dirá “eu estava só seguindo ordens”.
-
Quando a FTX faliu, Sam Bankman-Fried fez um tweet escrito somente “1) WHAT” e o deixou lá, sem explicação, por uma semana. Depois, foi vagarosamente adicionando uma letra por tweet até formar “WHAT HAPPENED” (o que aconteceu). Isso enquanto milhões de pessoas se desesperavam querendo seu dinheiro de volta e tentando entender o que o ex-CEO estava tentando comunicar, mas ele estava apenas cultivando engajamento na rede social. Esse caso acabou virando um meme, além de camisetas, bonés e canecas. Uso para abrir o texto como um duplo sentido poético começando com “O quê”. ↩